Sempre detestei esta determinação. Oiço-a desde a escola primária, mas o pior é que hoje, com boa parte das pessoas que conheço nos seus trintas e quarentas, continuo a ouvi-la. Para além de achar o termo consideravelmente infantil, acho-o injusto. Está certo que é bom saber que alguém nos considera o seu melhor amigo, e é até uma forma de nos homenagearem. Mas e todos os outros? Quando se diz a um amigo: “Fui ao cinema com o meu melhor amigo”, estamos automaticamente a descer o primeiro de nível. Estamos oficialmente a informá-lo que há o amigo de primeira, e que ele – temos pena - se insere na categoria de amigo de segunda. Além disso, é um absurdo, porque as relações não são estanques, nem nós somos sempre os mesmos. Provavelmente, numa situação o amigo A é o mais indicado para nos acompanhar, e noutras o amigo B. Por exemplo, se eu quero desabafar, talvez fale com a amiga C porque ela sabe ouvir sem me julgar. Se me sinto sozinha e a precisar de rir, vou ter com o amigo H, porque ele me faz sentir leve e bem disposta. No trabalho, a minha melhor amiga é a R, porque encara os projectos da mesma forma que eu. E o J, porque pensamos da mesma maneira e gostamos das mesmas coisas. Haverá um que se sobreponha aos outros todos? Não. Cada um simplesmente me acompanha em facetas diferentes da vida. Todas elas importantes. Todos eles importantes. Quando há tempos o J me disse de passagem que tinha falado com a “melhor amiga” sobre qualquer coisa, senti-me como um filme série B. Sou de segunda e parece que nunca vou chegar ao Oscar. Sou daqueles para ver em casa numa tarde de Domingo, enquanto a chuva cai lá fora. Quando andava no ciclo, ainda tentei usar a expressão. Dava para perceber que quem tinha um “melhor amigo” ganhava um certo estatuto. Mas rapidamente erradiquei a expressão do meu vocabulário. Com o passar dos anos, o número de amigos reduz-se significativamente. É o processo natural e isso não me angustia. Os que ficam… são naturalmente todos os melhores.
Todos os anos sinto a mesma coisa. O telemóvel apita com uma mensagem, abro-a e dou de caras com mais uma daquelas mensagens de massa, que alguém envia exactamente igual para todos os que conhece. Talvez seja ingratidão, porque o importante é que se lembrem de nós… Mas confesso que me desaponta. Talvez eu seja mesmo apenas mais um fio de esparguete, da massa de gente que aquela pessoa tem na agenda telefónica. Mas ainda assim, sou um fio com individualidade, com características específicas, e a minha vida não é igual à de todos os outros, nem a dos outros igual à minha. Parece-me mais um despachanço, para não pesar na consciência não ter dito nada, e resolver a coisa sem muito trabalho nem custos. Mas a verdade é que cada um está a viver um Natal diferente e tem expectativas diferentes para o novo ano. A Lena e o Ricardo ambos perderam o pai há pouco tempo, a Lurdes tem o sonho antigo de engravidar, o João vai mudar de emprego e está ansioso, o Ivo passa o Natal sozinho com os pais, a Mariana sozinha com a mãe, longe do resto da família e sonha encontrar o seu grande amor, a Zé esteve no hospital, a Eva vai finalmente voltar à Austrália, a Sofia finalmente ultrapassou as dificuldades e vai ter os pais com ela em Londres. Cada um é uma pessoa, em situação diferente, e com sentimentos diferentes. E é óbvio que eu já lhes desejo “tudo de bom, e que todos os seus desejos se realizem”, o ano inteiro. Se há algo que faz sentido nesta época do ano é personalizar, dedicar, ouvir uma voz do outro lado do telefone, dizer algo que seja apenas para “aquela” pessoa. As mensagens “chapa 10” parecem-me sempre vazias, ôcas, sem sentimento. Gostava mais de algo que me fizesse sorrir porque me significou algo pessoalmente. Assim como gosto de pensar que alguém se sentiu acarinhado por algo que lhe disse. De outra forma, talvez valha mais a pena gastar os cêntimos todos da chapa 10 numa doação a uma instituição, ou numa prendinha a alguém que não as tenha. Não gosto desta época de despersonalização e massificação. Estaremos assim tããão ocupados que não possamos escrever ou dizer algo pessoal? Mesmo que de longe sejamos uma massa indistinta, ao perto somos fios de esparguete com vida única. E cada um tem a obrigação – não, o prazer – de nos saber apreciar e distinguir. De resto, massa para mim, só no prato. E nem sequer é na ceia de Natal.
Pois é, não sei se é a moda que às vezes não sabe onde parar, se são as pessoas que não sabem parar no seu cego seguimento da moda. Estas são as que não percebo, nunca percebi e nunca vou perceber: 1. Da avó ou da bruxa? Faz-me lembrar as botas da avózinha dos contos antigos. Ou de uma bruxa qualquer representada nos anos 30. Onde raio é que isto fica bem? A quem? Com que peça de roupa? Ainda pensei que com o tempo, acabasse por lhes ganhar gosto. Não vai acontecer.
2. Calças? Onde? É verdade, há peças (a grande maioria) que só favorecem as magras. Mas estas calças não vejo favorecer ninguém. Só me faz lembrar as supé-tias da Sic Mulher e as suas make-overs, mas nem a nenhuma delas favorece. É um mix qualquer entre cossaco e árabe. Ideia promissora à partida, talvez, mas com um resultado...
3. As coisas que não se deviam ver (parte 1) Esta até a modelo Tyra Banks diz. A tanga não é mesmo para aparecer por baixo das calças. Até pode agradar aos rapazinhos adolescentes e as suas hormonas aos saltos, mas é das ideias de "moda" mais absurdas que já vi, e garantem os especialistas que não dá a nenhuma mulher uma imagem que ela queira manter... Xunga, xunga...
4. As coisas que não se deviam ver (parte 2) De todas, esta é aquela que menos entendo. Aquela que prova que, pela "moda", há mulheres que fazem tudo, inclusivé adulterar a sua própria imagem, optando por parecerem gordas e mal feitas (mesmo que não o sejam) ou passarem um frio de rachar, só porque é "o que se usa". Mulheres que já foram mães, usam as famigeradas calças de gancho baixo, magnificamente combinadas com os tops curtos, talvez com a ilusão de assim parecerem mais jovens, mais como as filhas. Todos sabemos que conseguem exactamente o resultado contrário... E magras ou menos magras, todas se subjugam aos ditos desta moda (que veio sabe-se lá de onde), mesmo nos dias mais gélidos e chuvosos. Para conseguir... não sei bem o quê.
Mudar é algo que a maior parte das pessoas diz não ser inerente ao ser humano. Que podemos até fingir durante algum tempo, adaptarmo-nos por uns períodos a determinada circunstância. Mas que no âmago na verdade nunca mudamos. Eis que a velha água com gás veio provar-me o contrário. Até há pouco tempo, não percebia o interesse naquela a que chamam água das pedras. Sabia-me a qualquer coisa amarga e desagradável, e só a tomava como remédio, das felizmente poucas vezes em que o estômago esteve ressentido. E dificilmente chegava ao fim de uma mísera garrafa. Subitamente - já nem me lembro em que ocasião se deu a incrível mudança - sou viciada em água com gás. Quase não passam dois dias sem beber uma. E não tem nada a ver com a recente moda de águas com gás de todos os sabores. Até porque isso é só uma maneira diferente de trazer à vida os sumos gaseificados. O que me sabe pela vida é aquela garrafinha pura de água sem qualquer sabor adicional, cheia de bolhinhas. A simples água com gás. Há alturas em que sinto mesmo aquela necessidade de ir beber uma, e não há mais nada que a consiga substituir. Nem mesmo a Coca Cola, de que sempre fui tão fã. Pois só pode ser da idade. Conheço mais gente que sofreu esta guinada súbita, do desdém à avidez pela bebida. Talvez seja a entrada nos 30? Não vejo qualquer relação. Mas é assim que esta casa passou a ter sempre um stock delas. Das maravilhosas garrafinhas de água com gás. Até a água simples parece já não ter o mesmo encanto, ou o mesmo potencial para saciar. Mas a idade tem destas coisas. O que antes detestávamos, de repente adoramos. Como tomate, no meu caso, ou as folhas mais claras da alface. Se pensar bem, quantas águas com gás cada um de nós não tem nas nossas vidas? É como o anúncio. Sempre dissémos que não íamos querer ter filhos, ou que nunca íamos querer um trabalho tranquilo, ou uma casa no campo, ou ansiar por uma bela noite passada no conforto do sofá. É bom perceber que afinal não estamos parados, que mudamos e nem sempre é por obrigação. Às vezes acontece espontaneamente. O que parece desagradável em determinados anos, passa a saber maravilhosamente mais tarde. E o que parecia tão fixe passa às vezes a parecer tão fútil e desnecessário. Brindemos pois à mudança espontanea! Com água com gás.
E o melhor teledisco (pois, que era como se dizia na minha adolescência videoclip) de todos os tempos! Na altura em que os telediscos ainda tinham uma história, em vez de apenas mulheres semi-nuas em movimentos eróticos. Quantas de nós sonharam com aquela mão a vir-nos buscar...!
Provavelmente o primeiro casal do cinema a juntar-se graças aos computadores. Nunca vi o filme, mas é para mim uma das melhores músicas dos anos 80. Together in Electric Dreams!
Não é todos os dias que na nossa vida se cruza connosco a maldade. A pura, a que não mede consequências, que não teme castigo, que é cega à honestidade dos outros, que usa quem se cruzar no caminho, que não conhece princípios e desdenha quem parece mais feliz. Mas há uma dia em que ela aparece, ou em que ela se revela em seu pleno esplendor. Ou melhor, na sua escuridão. É nesse dia que descobrimos que funciona como uma espécie de buraco negro, que vive no seu próprio mundo escuro, distorcido e desconhecido, e que atrai para si quem menos espera. Estamos habituados a ter quem goste de nós e quem não goste. Mas ter sobre nós o peso do ódio gratuito de alguém pode ser arrasador. A maldade centrada em nós, por razão nenhuma, é esmagador. Eu pensava que a maldade em estado puro era coisa dos contos de fadas, das histórias dos filmes. Afinal ela existe mesmo, e é capaz de mentiras e manipulação, de rancor e de inveja de uma forma que eu não conhecia. E quanto mais nos tentamos manter no pedestal dos nossos princípios, mais somos abalados, mais a maldade nos utiliza e à nossa forma de ser para seu proveito. Hoje descobri que há pouco a fazer contra o jogo puramente sujo. Jogar limpo é fraco e pouco premiado. Descer ao mesmo nível é vergonhoso, além de falhanço certo para os amadores. E retira por completo o prazer e a justeza da victória. Só é pena que o final das histórias também não seja como nos filmes. Parece que lado bom quase nunca realmente ganha. Aos perdedores resta esperar por alguma justiça divina, alguma incrível e perfeita reviravolta do destino. Mas é claro que estes perdedores ganham numa coisa! A dignidade de não ser como os vencedores.
Se há objecto que representa na perfeição a ancestral guerra dos sexos é o assento da sanita. Os homens querem-nos para cima, as mulheres exigem-nos para baixo. E porquê para baixo? Além de muito inestético, não passa pela cabeça dos homens como é desagradável entrar meia a dormir na casa-de-banho pela manhã e encostar as nalgas à louça fria. Pior ainda se por lá tiverem ficado algumas gotas inadvertidamente esquecidas pelo último utilizador masculino. Por isso, instituiu-se que a posição correcta do assento da sanita é: para baixo. E é de tal forma uma acção essencial que um assento para cima passou a significar um homem desleixado e bem a marimbar-se para as vontades femininas. Ao passo que um assento para baixo guarda um homem sensível e carinhoso, preocupado em agradar à mulher e às suas preferências. Só há poucos dias me lembrei de ver a coisa pelo outro lado, a do homem. Porque raio há-de a sanita estar sempre pronta a ser utilizada pela mulher e nunca pelo homem? Sempre que o homem lá chegue, por muito aflitinho que esteja, tem sempre que lembra-se de levantar o assento, antes de se aliviar. E se por acaso se esquece do maldito assento, corre sério risco de deixar por lá vestígios muito pouco apreciados pela facção feminina. E quanto à estética, convenhamos, quantos dos visitantes das nossas casas se passeiam pela nossa casa-de-banho para ver as vistas? E quantos comentam com os amigos no dia seguinte “Vê lá tu que na casa do João e da Susana deixam o assento da sanita para cima.” O que lhes interessa é o vinho e as sobremesas. Se calhar... só se calhar, não existe realmente nesta história um lado com razão. Mas... se somos nós que todas as semanas temos que levar com o TPM, a menstruação, a depilação... Se temos que parir e passar pela menopausa, e tantas outras coisas... Eu digo definitivamente: para baixo!
Talvez seja um cliché, mas os clichés têm a tendência a ser verdade. Tenho percebido que há por aí muita gente que vive no futuro. Concentrados no facto de que o tempo escoa. Receosos com a velocidade com que o tempo passa. Apavorados com a ideia de que talvez nunca realizem os seus sonhos, de que talvez não encontrem o que procuram. Ao invés de construírem, procurarem, perdem-se no medo por aquilo que não podem controlar: a passagem do tempo. Vivem virados para a frente, nem percebem o momento em que têm os pés. Que é o mesmo que dizer que não vivem de facto. Que estão distraídos e nem notam a vida a passar-lhes ao lado. O futuro não está nos sonhos nem nos medos nem nas palavras de uma vidente. O futuro está nas nossas acções do dia de hoje. Há uma parte do futuro que não está mesmo nas mãos de ninguém. Mas outra parte depende grandemente do que fazemos hoje. E é aí que a vida vale tudo o que vale. É aí que ela tem todo o brilho que lhe quisermos dar. Concentrarmo-nos no fim das coisas, no curso natural da vida, no escoar do tempo, nas imponderabilidades, é impregnar com uma carga negativa todos os dias em que temos a felicidade de existir. Todos temos o direito de sentir medo, de vez em quando, de pensar demasiado, de sobre-racionalizar. Mas justamente por sentirmos sempre que o tempo é pouco, temos o dever de o agarrar com as duas mãos, e de viver para o dia. De construir, de rir, de amar, de sermos nós próprios. De nos entregarmos à vida sem timidez. Virados para o agora. Já. Para o depois ser ainda melhor.
Quando se está muito tempo com uma pessoa, quando se partilham projectos, se dividem tarefas, se planeiam futuros, há sempre, sem excepção, uma única questão que acaba por surgir à superfície. A razão. Nos primeiros tempos, somos sempre o melhor de nós, compreensivos, tolerantes, prontos a ceder, abdicando sem hesitações da nossa opinião pela do outro. Mas por baixo do verniz lustroso e sem falhas, estamos nós, seres humanos de tal forma imperfeitos e humildo-deficientes que sabemos que somos donos daquilo que os outros todos apenas acham que têm: razão. Infelizmente, o tempo e os obstáculos ocupam-se de fazer estalar a nossa brilhante cobertura, e pelas falhas lá começa a reluzir o nosso lado mais negro. O lado QUE TEM RAZÃO. É assim que, enquanto para uns somos mesmo simpáticos e bem dispostos, para outros nos tornamos lentamente cada vez mais intransigentes. Ceder é cansativo, e às tantas já não conseguimos manter aquela almofada de segurança entre o que pensamos e o que dizemos. Porque convenhamos, em 99% dos casos, quem tem razão... somos nós. E é tão estranho como os outros não conseguem ver algo tão claro...! Soluções? Não sei. A razão está no meio de todas as relações, e desconfio que está também no início e no fim de muitas. O equilíbrio dura apenas enquanto o verniz não estala. E racionalizar, conter, evitar não me parece natural, extermina toda a espontaneidade entre as pessoas. E como não é natural, dura apenas o que dura – muito pouco. Porque se não é natural, não tem graça nenhuma. Ouvir. Ouvir talvez seja a solução. Ter razão não pode ser uma questão de honra. Talvez faça mesmo sentido se os outros chegarem de facto ao fim das frases. Talvez outras vezes seja apenas outro caminho para chegar ao mesmo lugar, e quem sabe até seja um caminho mais curto. Ou mais longo, se tiver que ser. E ver. Vermo-nos pelos olhos dos outros. Por muito difícil que seja, é um exercício – por vezes desagradável – que nos impõe limites e nos lima arestas. A razão pode transformar-nos nuns monstrinhos insuportáveis, e quanto mais nos domina, mais parece que são os outros a sofrerem a mutação. É a vida. Enquanto houver duas cabeças, haverá duas razões. A dos outros... e a correcta. E agora digam lá se eu não tenho razão.
De toda a ficção que vi até hoje, houve alguns lugares que me fizeram interrogar... Porque é que não fizémos o mundo assim?
Um deles é Cabot Cove, a cidadezinha da série "Crime, disse ela". Supostamente localizada no estado do Maine, diz-se que na verdade era uma cidade na California que serviu de fundo ao lugar onde a escritora Jessica Fletcher escrevia os seus livros. Sempre me atraiu aquele lugar, onde as pessoas se conhecem, se ajudam, vão a casa umas das outras, passeiam juntas. Onde se vai de bicicleta à mercearia. Onde não há prédios, e as casas são brancas e de madeira, integrando-se perfeitamente no ambiente natural. E acima de tudo, onde há espaço maioritário para o verde e para o mar.
Lugar muito diferente é Hobbiton, a terra onde há séculos vivem os Hobbits, seres pequenos de pés gigantes e peludos, heróis de "O Senhor dos Anéis". Um povo que se anichou nuns montes verdes, numa terra atravessada por um riacho, e onde viviam em comunhão com a natureza, para sentir o prazer da vida a passar, com calma e sem ambições. Viver para viver. O lugar existe mesmo, na Nova Zelândia, mas o governo não quis mantê-lo após as filmagens, pelo que é hoje um lugar ao abandono, ainda que muito visitado.
Aahh, e Cicely. O lugarzinho perdido no Alasca, que servia de cenário mágico à série "Northern Exposure", em português "No Fim do Mundo". Não era uma cidade particularmente bonita, e o frio imperava a maior parte do ano. Mas não havia espaço para a impessoalidade. E o mais fascinante, cada pessoa tinha as suas características, as suas diferenças, as suas loucuras, e toda a gente as encarava com naturalidade. E apoiavam-se nas suas buscas pessoais.
E finalmente, claro, o mundo Disney. Entrar naquela Main Street USA é dar um passo para um mundo mágico. O mundo como ele devia ser, bonito, acolhedor, musical, repleto de fantasia, e principalmente um mundo onde é permitido aos adultos rirem, brincarem, surpreenderem-se e descobrirem como crianças. Onde, sabe-se lá porquê, as pessoas se dão bem e são todas iguais. Onde os ódios e as irritações parecem não entrar.
Talvez seja realmente mais fácil os lugares onde vivemos se assemelharem a estes que só visitamos. Porque pensando bem, às vezes... talvez bastasse querer.
Coisas que nunca me ensinaram na Escola de Condução
1. Os piscas são acessórios opcionais; 90% do carros em circulação não está munido deste material. 2. BUS significa: faixa exclusiva, destinada aos intelectualmente abençoados, que fazem transportar-se em monovolumes, também conhecidos por “chico-espertos”. 3. Todos os outros condutores são mais burros e incompetentes do que eu. 4. Todos os outros condutores são meus inimigos mortais. 5. A minha vida é muito mais importante para o mundo que a de qualquer outro condutor. 6. As pedras da calçada identificam os pontos de estacionamento, bem como largas faixas brancas de um lado ao outro da estrada, ou postes com números e coberturas da chuva. 7. A minha capacidade de ultrapassar os outros é prova factual da minha superioridade mental e física sobre os outros. Sem estas vitórias diárias, sou um fracasso. 8. As zebras, tal como qualquer outro animal, não sabem o seu lugar e podem ser atropeladas. 9. Aqueles condutores com a letra L no tejadilho são um empatanço, e já deviam ter nascido ensinados, como foi o meu caso. 10. O tamanho e a potência do meu veículo é proporcional ao amor e admiração que os outros sentem por mim. 11. Os peões são um estorvo a erradicar, para que haja mais espaço para o meu veículo. 12. Todas as regras do trânsito foram criadas exclusivamente para obediência dos outros condutores. Eu sou impune. E parece que há polícias que têm a petulância de ainda não ter percebido isso.
Gosto destas pessoas. Não haverá assim tantas, e normalmente, claro, são mulheres. Dão beijos como uma facilidade incrível, à família e aos colegas de trabalho. Como a Elisa. Não é melosa, nem pirosa, nem fingida, nem chata. Mas dá beijos, sem o menor constrangimento. Não será por dá cá aquela palha, mas dá. Admiro este à vontade. Acho uma maravilha, porque a mim não me passaria pela cabeça achar que as pessoas em geral não se importariam de receber beijos meus, sem serem os do cumprimento da praxe. A Elisa dá-os na cabeça, no rosto, mas daqueles sentidos. Fez-me lembrar um rapaz que conheci já devem ir uns 17 ou 18 anos. Já nem me lembro do nome dele. Mas dizia ele que achava os beijos no rosto, no cumprimento às mulheres, muito fugazes e sem sentimento. E não, não era depravado. Segurava-nos o rosto e beijava-nos a testa. Por altamente fútil e piroso que este texto possa soar, o facto é que percebi naquela altura como estamos todos tão pouco habituados a beijos sentidos. E o beijo na testa tem algo de carinhoso e respeitoso, e transforma os dois beijos passageiros e insignificantes numa manifestação de sentimento. É por isso que gosto dos amigos / colegas / conhecidos beijoqueiros. Aqueles cujos beijos realmente nos atingem a pele e até fazem som. Que mostram que as manifestações de carinho fora do seio familiar podem ser a coisa mais normal do mundo. A minha conclusão é que todos devíamos praticá-las e quebrar aquela barreira física que muitos de nós parecem ter. O nosso espaço individual é para a maioria demasiado restricto e inflexível. E raios, porque é que havemos de ter vergonha de beijar um amigo?
Numa espécie como a nossa, com a nossa capacidade mental, seria de esperar que facilitássemos a vida a nós próprios. Bom, talvez o façamos em certo aspecto. Somos cada vez mais permissivos a nível ético, observamos passivos todas as infracções, a má-formação alheia e a nossa própria. Contudo, somos cada vez mais exigentes a nível estético. E é uma exigência estúpida. Inventou-se um padrão, e agora temos que ser todos iguais. Os mesmos narizes, as mesmas bocas, os mesmos rabos, as mesmas mamas, as mesmas alturas, as mesmas ancas, as mesmas idades. De preferência, tudo ao mínimo, excepto a altura e a boca... A magreza tornou-se um dogma, assim como ser gordo foi noutros tempos, mas agora em dimensões muito mais extremas e globais. As mulheres são, incrivelmente, os seus maiores polícias. E não se perdoam, vêem-se do dobro do tamanho que realmente são, obrigando-se a atravessar todo o género de processos, dos comprimidos aos batidos, da fome ao Talon. Admiro-lhes a força de vontade, mas confunde-me aquela estranha esperança de que a felicidade está no fim daquela dieta. Pior do que isso, espanta-me que nos tenhamos tornado tão intolerantes justamente naquilo com que já nascemos. Ou seja, naquilo que mais difícil, se não impossível, é de mudar. Pelo menos de forma definitiva. As lojas fazem-lhes a vontade. Lugares como a Zara, a Mango, a Bershka e outros, são um perfeito gozo à constituição natural do ser-humano. E quem acha que aquilo é mesmo um XL, vá dar uma voltinha à Europa, porque anda um bocado desligado da realidade... Na televisão, também lhes fazem a vontade. Os programas mostram a felicidade que vem agarrada ao perfeito sacrifício da carne, e atravessam-se verdadeiras torturas simplesmente para entrar dentro do padrão. Aquelas pessoas choram lágrimas sinceras por vidas permanentemente atormentadas pelo escárnio dos outros, e portanto são elas que mudam para agradar e ser aceites por quem sempre as maltratou. Em vez de serem os outros, os intolerantes, a mudar. Pior ainda parece ser envelhecer. De facto, devia ser proibido. Porque rugas, só mesmo nos recém-nascidos. E à medida que vão tendo mais anos, olham para as mais novas como se fossem elas as donas da juventude eterna, e não fossem mudar nunca, como lhes aconteceu a elas. Uma coisa é ter saúde. Outra é simplesmente não aceitar a diferença. Não amar a diferença. Cada vez mais tornamos a vida mais difícil para nós próprios e, pior ainda, para os nossos filhos. Parece que só estaremos satisfeitas quando formos todas meio plásticas e paus de virar tripas. Pela saúde, faz-se exercício e come-se bem, de forma equilibrada. Agora se estas mulheres pensam que vão ter ou manter um homem, que vão ser felizes e bem sucedidas, só porque se assemelham a uma tábua de passar a ferro... pensem outra vez. Por alguma razão se diz “se queres amor para sempre, casa-te com alguém com quem gostes de conversar.” A diferença é o melhor do ser-humano. E recomenda-se.