terça-feira, 27 de julho de 2004

Debaixo da lente de aumentar

Queria poder ser imperfeita. Queria ter esse direito. De errar, de falhar, de me enganar, de desistir. É claro que sou imperfeita. Mas às vezes tenho a sensação que não me é permitido, que se fui posta aqui, agora tenho que andar na linha e ser perfeita. Queria poder bater com a cabeça, queria poder dar respostas tortas de vez em quando, queria poder não ser eu a ter cuidado, às vezes. Às vezes sinto-me debaixo de uma lupa gigante, e do outro lado está um olhar que acenta todos os meus erros. E debaixo daqueles olhos está uma boca que não perde a oportunidade para mos lembrar. E quanto mais tento não falhar, pior, porque as falhas destacam-se mais. A maior parte dos dias consigo fugir desta lupa. Mas há dias em que ela me descobre, onde quer que eu esteja, e por muito que eu me esforce. Talvez seja verdade, que os que mais próximos de nós estão são os que mais de nós esperam. Mas eu queria poder decidir e enganar-me, queria poder aplicar-me e errar, queria poder tentar e desistir. E ter braços por baixo para me agarrarem, em vez daquela lupa sobre a minha cabeça. Talvez a vida seja mesmo assim. Se há um par de mãos que nos embala, há um monte de outros pares com os dedos apontados às nossas fragilidades. Há sempre quem vá concentrar-se na nossa imperfeição. Pelos vistos a vida é assim. E essa é daquelas coisas que ninguém nos explica, simplesmente leva-se com ela em cima. Provavelmente, cabe-nos a nós agarrar nela e atirá-la para longe, sempre que ela insista em cair. Mas há momentos em que parece que ficámos enterrados debaixo dela.